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Poeta catarinense
com dedos podres
e mania de flâneur

Autor de "Cá Entre Nós -
Odes de Alusão e Ilusão"

LANCE DE LUA

Eu sou um colecionador de escárnios
Um catálogo de escândalos emplumados
Uma savana de poemas plácidos
Mas peludos - quando incomodados
Há muito venho sabendo de mim
E há muito me abstenho
Torto de tanto refinamento
Tonto de tentar
Saber-se é, após o susto, desistir de conhecer-se
É uma carta de marfim colada à rapidez do truque
Uma gaiola, a ilusão de uma gaiola
E uma ave medonha recheada com gravetos
Ora pois, este é o meu palco!
Isto é tudo o que me resta
E aqui, perplexo, entre o vasto e o constrito
Como uma casa abandonada às pressas em meio a tragédia
Estou restando
Sou cotovia da asa partida embriagada de nuvem
Sou pomba pisada que gira adoidada pelo chão do terreiro
E já que estou obsceno, e que neste palco se mostra tudo
Estenderei minhas entranhas ao sol
para que sequem à vista de todos
Afundarei como boa feiticeira
Num brinde perene à minha doce iniquidade
Assumindo toda a repulsa que à mim é destinada
Para então afundar
Lá do topo torpe do pescoço em riste
Até o fundo da carapuça feita à mão
Rio da forca com um descaso que assusta
E digo: Sou o pomo dourado de Éris
Mas não sei sequer de que falo
Ajo como um sabotador de tragédias gregas:
Grotesco, mas refinado em minha detalhada perversão
Divino, mas ainda assim grotesco
Em meus ritos de bacanal
De um desespero lívido, quase convincente
Vivendo como que para horrorizar
um público inexistente
Para incutir-lhes desprezo
e desgosto
pela estrela principal.