Escaldante de pureza.
Entre os dentes, a incandescência;
o que não se pode reter.
Na ponta da língua, discursos decorados.
O impulso incontrolável
de trair o diálogo
e ceder ao adultério inominado.
Nota-se pelo ar o cheiro da fumaça.
E vem do topo do monte,
onde foi armada a fogueira inquisitória.
Aldeões dos arredores a apontar-lhe os dedos rijos
e em cada uma das bocas os vermes da condenação.
As chamas, a traçar-lhe o destino;
o calor, a confirmar o caminho.
Nos delírios de sua própria grandeza,
o fogo serve apenas para aquecê-lo.
Para delicadamente afagá-lo.
O rosto pérfido na luz rubra.
Os escaldos da pureza a arder-lhe na pele.
Impulso incontrolável de trair à si próprio
- com quem for e quando bem lhe convier.
Na ponta da língua, restos e rostos
de muitos outros.
