Agora tu deste para catalogar os poemas que dediquei a ti? As datas e os fatos recorrentes em minha biografia? Como pérolas que certa vez esqueci largadas junto à porta da pocilga, e que brotaram como raízes nodosas e contorcidas em meio ao lodo. E que foram, por fim, devoradas pelos porcos. História linda esta. Mas do que eu estava a falar.
Ah. A forma como tratas de ranger bem os dentes a cada balbucio, a cada espreitadela sorrateira, entre um flash e outro de uma suposta (e muito comentada) felicidade, em muito se parece com a minha forma de também ranger os dentes a cada espiadela, a cada palpite em falso a respeito do ar europeu, das bebericadas de chardonnay, das estripulias com carpaccios, ou dos lambuzos do sétimo dia.
Como se não bastante o espalhar de espiões pelos quatro cantos do globo (ligeiros informantes a respeito de tudo) agora propõe-se este moderníssimo voyeurismo estilístico. Sinto-me exposto, confesso, como se revirado e espreitado pelo avesso. Entretanto - não nego - excito-me com as regras deste jogo. Todo o ser, em seu âmago, é um exibicionista. Uns mais, outros menos.
