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Poeta catarinense
com dedos podres
e mania de flâneur

Autor de "Cá Entre Nós -
Odes de Alusão e Ilusão"

AS VOZES DA FOLHAGEM


Tentei alcançar-te mas havias enlouquecido. Desde que ficaste louca a se entrelaçar com as árvores. A tomar parte em estranhas cantigas de roda num ponto do bosque que os aldeões alertaram para que não chegássemos perto. Acabei por perder-te de vista. Mimetizada em meio às folhagens como se fosses parte delas. Era inútil que eu chamasse - inebriada que estavas por ouvir uma música que, dizias, só tu podias ouvir. E era essa a mesma música que cantarolavas enquanto passeávamos nos primeiros dias do verão e tu me contavas histórias estranhas sobre pactos silenciosos e certas vozes vindas diretamente do coração da mata. Vozes que clamavam por ti, vozes que exigiam coisas para além do que o teu corpo e a tua razão poderiam conceber. Fascinavas-me. Examinava as sardas no teu rosto, palpitava acerca da tua longínqua descendência. Os traços, os cheiros, as partículas. Tudo em ti continha uma ligeira aura de mistério que me instigava a desvendar-te. Tu me levavas em passeios noturnos do quais não esquecerei, e me pegavas pela mão para que eu não tivesse medo. Quando, naquela noite, despertei de um sonho terrível para me deparar com a tua cama vazia ao meu lado, senti na força do arrepio o horror de um presságio. Corri esbaforido pela porta afora somente a tempo de ver-te cruzar a linha das sebes, sonâmbula, até o caminho das begônias que conduzia às margens do bosque. E reluzias, como que iluminada por um holofote espectral, até o momento em que o teu contorno se fundiu ao breu. Nunca poderia supor que seria aquela a última vez em que a veria, como jamais imaginei que um dia haverias de deixar-me. O solo desta mata é testemunha de que não desisti nunca, e nem por um instante sequer cessei de buscar por ti. Até hoje, quando retornam as chuvas do verão, ponho-me a caminhar pela floresta e é como se trouxesse no peito sempre a estranha sensação de que atrás de cada arbusto e de cada tronco fosse me deparar contigo, desnorteada, úmida de seiva, e me contarias então que estavas recém saída dum casulo vegetal de onde repousaste por todo este tempo. E que haverias por fim retornado para mim. Mas por detrás de cada tronco e de cada arbusto em que não te encontro é que me convenço da mais dura realidade: a de que não haverás de voltar, nunca, e a de que ascendeste a um ponto em que não poderei atingi-la. O peso desta certeza cai-me aos ombros de supetão. Desde então, tenho o coração crivado de heras. Choro, e minhas lágrimas lavam o chão da floresta tal qual a chuva de verão que anunciou o início daquele fatídico dia. Resta-me daqui por diante uma única certeza e nela me agarro com veemência: a de que embora não mais te encontre, pequena ninfa trágica, saberei sempre que estiveres por perto. No cheiro do orvalho e nas nódoas das raízes. No zunido dos insetos. Nos líquens, nos visgos e nos musgos. No tapete de folhas secas no qual repouso, agora, e te escrevo. Para lembrar-te. Sei a verdade: o teu corpo é a própria mata. Só os pedaços é que se espalharam.