- Lucas Schlemper
Poeta catarinense
com dedos podres
e mania de flâneur
Autor de "Cá Entre Nós -
Odes de Alusão e Ilusão"
TEMPOS DE LOBO
Este é para você que viu certas coisas realmente inacreditáveis.
Por exemplo: a minha eterna ternura.
A cauda da serpente que é frágil por debaixo.
Deslizando pela Avenida Atlântica, nos folhetins de festa
e circundado de luzes estranhas.
E me dizias: "Deixa estar..." Ao que eu replicava.
As circunstâncias impediam.
As cartas nunca estavam no mesmo lugar.
As ruas entre nós estavam sempre alagadas.
E as verdades eram gritadas a plenos pulmões em meio à avenida.
As pessoas andavam mascaradas.
Estourava algum tipo de guerra pelas ruas do país.
Tempos de lobo - dos quais não tomei parte,
mas que estive sempre à par dos acontecimentos.
Cenário: sala do apartamento. Madrugada.
Este é para você que espreitou pela fechadura e se assustou com o que viu.
Mas que, após o susto, veio a fascinar-se com o horror da imagem
e quis então revê-la, para se convencer de que havia visto.
Mas deste segundo vislumbre não sairia ileso.
Este é para você que entrou mudo no recinto, e de lá saiu desconcertado.
E provou da maldição da pirâmide.
"A desgraça virá com asas para aqueles que ousarem profanar esta amplidão."
Decifras mas não compreendes. Descobres, mas não sabes do que se trata.
E o cenário muda. Beira do cais, primeiras horas da manhã.
Você me estende um lenço, eu lhe estendo um outro lá de cima do convés.
Daqui por diante nos amaremos na distância. Convictos e absolutos.
Nunca mais terás notícias minhas; repito, como que para reforçar a minha coragem.
E nutro-me dos seios da sereia à estibordo enquanto o navio some no infinito.