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Poeta catarinense
com dedos podres
e mania de flâneur

Autor de "Cá Entre Nós -
Odes de Alusão e Ilusão"

PRAGA


É uma praga/Você só gosta das partes difíceis/Mas hoje te cabe a mais fácil/

A ciência das casualidades: Eduardo à caça de vaga-lumes como quem caça por palavras, fogos-fátuo por dizer, imprecisão no terreno encharcado do pântano e com pressa, muita pressa de partir dali como se não houvesse um passado todo por detrás, como se não houvessem as vaias da torcida ao fundo ainda desapontadíssima e os imprevistos de cena justamente nos highlights da trama; Desenrola-se uma espécie de campeonato esportivo no país, pessoas gritam nas ruas e comemoram ensandecidas, e eu nem nada, bem atento aos aúgurios que escorrem pela boca da pequena Rhiannon profética e canastrona mas bem vestida no meio da torcida, toda a sua coleção de caras e bocas recortadas de revistas, a mãe de um lado (quadro bergmaniano) em plástica e adorável juventude, e eu, do outro, a ver parcos navios no reflexo da bola de cristal. Mari me telefona lá do sul, classuda até para os conselhos mais baixos, (...). Saio ventando. Perco a hora, chego tarde no pântano e não há mais ninguém, de modo que não posso recitar as linhas que caprichosamente decorei, o estômago embrulhado numa náusea que me remete à uma outra anterior. De volta à rodoviária aviso que vou vomitar e então vomito os vaga-lumes que me brilhavam na barriga, um por um caindo ao chão e explodindo em imagéticos feixes luminosos e ruidosos estalos, coisa linda de se ver, tipo um réveillon pirotécnico exclusivíssimo bem ali no corredor do ônibus e eu sendo o canhão de fogos - alguns achando inclusive que aquela era a cena mais visceral que já tinham visto - mulheres a enfiarem os vaga-lumes roubados nos bolsos dos casacos - ao que aproveito da confusão para botar para fora também umas verdades indigestas. Embora a intenção inicial fosse só a de ter uma desculpa para ganhar tempo depois de tanto candy talking com os gêmeos em São Paulo, preencher inevitável lacuna do segundo encontro, etc, depois do ocorrido as coisas tomaram um outro rumo e uma outra proporção. As decisões têm um outro peso lá no sul do país, como se fossem mais literárias menos literais e por isto mais perigosas - e depois do grito que não era grito eu me senti naquela cena de Lucía y el Sexo, caminhando rumo ao farol ou cozinhando paellas despreocupadamente. Eu não sei do que são feitas as casualidades. Só sei que existem porque as sinto como sinto o vento.