Ela pinta a boca e o rosto para dar-lhes a solidez
imóvel de uma máscara.
Fazer-se planta, pantera, diamante, madrepérola,
misturando a seu corpo flores, peles, búzios, penas.
Para que não a reconheçam logo à primeira vista,
ela escova os longos fios com obstinação.
Quer a crina sedosa dum cavalo que viu em sonho.
Quer da beleza o mais puro dos disfarces.
Como uma ladra fascinada pelo risco que corre,
é profunda em sua má-fé.
A pobre santa agora está numa garden party.
O rosto impávido, irresoluto.
Como é bela!
Mas digna de pena:
por debaixo da mesa, sem que ninguém perceba,
corta as coxas com uma navalha.
Arranha-se,
queima-se com cigarros acesos.
Enquanto fala consigo mesma:
"Doida!... Estás doida!".
A máscara continua intacta.
Desafia o futuro amante
que nunca teve - e nem terá
como se dissesse:
que nunca teve - e nem terá
como se dissesse:
Não me infligirás nada de mais odioso
do que o que inflijo a mim mesma.
Nua, diante do espelho,
ser estranha lhe é motivo de orgulho.
"Nós morremos todas aos 15 anos", disse-lhe, certa vez,
uma jovem moribunda. Desta frase ela guardou o som e o gosto.
Sabe-se desde já que não encontrará o amor,
mas encontrará por fim a poesia.
Embora, nesta altura
coberta até o pescoço de absoluta indiferença
no vazio que vier a desenhar para si própria.
Talvez acabe como a sua mãe, silenciosa,
com um avental azul e chaves nas mãos.
E os ruídos de sua existência prévia
sejam só a banda sonora
a embalar a cena de sua tão aguardada redenção.
