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Poeta catarinense
com dedos podres
e mania de flâneur

Autor de "Cá Entre Nós -
Odes de Alusão e Ilusão"

FLOR QUE SE CHEIRE


Ela pinta a boca e o rosto para dar-lhes a solidez
imóvel de uma máscara.

Fazer-se planta, pantera, diamante, madrepérola,
misturando a seu corpo flores, peles, búzios, penas.

Para que não a reconheçam logo à primeira vista,
ela escova os longos fios com obstinação.

Quer a crina sedosa dum cavalo que viu em sonho.
Quer da beleza o mais puro dos disfarces.

Como uma ladra fascinada pelo risco que corre,
é profunda em sua má-fé.

A pobre santa agora está numa garden party.
O rosto impávido, irresoluto.
Como é bela!

Mas digna de pena:
por debaixo da mesa, sem que ninguém perceba,
corta as coxas com uma navalha.

Arranha-se,
queima-se com cigarros acesos.

Enquanto fala consigo mesma:
"Doida!... Estás doida!".
A máscara continua intacta.

Desafia o futuro amante
que nunca teve - e nem terá
como se dissesse:

Não me infligirás nada de mais odioso
do que o que inflijo a mim mesma.

Nua, diante do espelho,
ser estranha lhe é motivo de orgulho.

"Nós morremos todas aos 15 anos", disse-lhe, certa vez,
uma jovem moribunda. Desta frase ela guardou o som e o gosto.

Sabe-se desde já que não encontrará o amor,
mas encontrará por fim a poesia.

Embora, nesta altura
coberta até o pescoço de absoluta indiferença
no vazio que vier a desenhar para si própria.

Talvez acabe como a sua mãe, silenciosa,
com um avental azul e chaves nas mãos.

E os ruídos de sua existência prévia
sejam só a banda sonora
a embalar a cena de sua tão aguardada redenção.