destilo, diluo e torno a ferver:
esta é a alquimia das palavras.
Matéria hermética.
Quem procurar pelo sentido exato
estará fadado ao fracasso.
Assim como eu
nunca estou muito certo
do que digo.
Percebe?
Tento encontrar o sentido exato
para além daquilo o que as palavras
podem exprimir. Mas o simples gesto
de concentrar-me nisto faz com que eu
me distraia daquilo que pretendia que fosse
o intento da procura. E acabo por perder-me
antes mesmo de começar a burlar os limites
da palavra. Assim, vejo-me exposto. Porque
denuncio as minhas intenções com aquilo o
que não digo, e o que digo, por fim, fica só
a parecer com uma maquiagem por cima de
uma outra coisa ainda. Quero dizer sensações
para as quais ainda não encontrei
as palavras certas.
para as quais ainda não encontrei
as palavras certas.
Por exemplo, a sensação de ir desvendando
os entremeios de alguém sem que ninguém
tome conhecimento disto. Que deve ter algo
de semelhante com a sensação de se deparar
com um mistério secular, intacto, dentro duma
câmara soterrada. Eu quero descrever o que não
se descreve, por real impossibilidade ou por falta
de um sentido exato: um deserto; um quasar distante;
um jorro vivo de inspiração. Perdoa-me pela tentativa.
Só quem já se perdeu ao tentar descrever o indes-
critível é que pode conhecer a sua real dimensão.
