Em vias de perseguição: persigo as palavras por dizer, antecipo frases nas bocas dos outros. Estes são os meandros da minha vaidade. Esta fixação por alcançar e compreender o contorno exato das palavras, atiçá-las, instigá-las, para então beber-lhes o som. Quero que soem sempre certeiras e precisas, ciente da veemência que inspiram, e que transmitam tudo. Escrever é uma consequência desta obstinação cega, desta busca incessante pelo que não foi dito ainda.
Queria poder esperar da literatura o mesmo que uma cigana espera das cartas que deita à sua frente para colher augúrios e para interpretar a vida e a morte. A cigana, entretanto, não se reinventa através das figuras que evoca: submete-se à simbologia do que estas representam. Quanto a mim, vou escrevendo e não há nada que já esteja escrito sem o meu prévio consentimento. O epílogo se transmuta em prólogo ao meu bel-prazer. E vice-versa.
