não nasci pra empunhar
a estrela d’alva na boca
Chegou às minhas mãos uma pré-versão da obra "Leito Invisível", do autor catarinense Rafael Zen, que virá a ser publicado ainda este ano sob os desígnios editoriais do Coletivo Hiato. Rafael, escritor engajado há anos em manifestações artísticas, saraus temáticos e publicações acadêmicas, oferece ao público o seu primeiro livro oficial de poesias. Antes deste, houveram, é certo, outros experimentos, mas "Leito Invisível" é sua incursão definitiva e, esperamos, irrevogável, por estes terrenos cristalinos.
Rafael dialoga intimamente com os laços de convivência, o invisível à luz de todos os dias, os detalhes quase imperceptíveis à vista dos olhos. As cenas evocadas se passam em quartos de dormir, cozinhas e antessalas, cenários estes que servem de palco para atentas metáforas e para símbolos de uma translúcida fragilidade - como sugere o próprio título da obra. "O mundo é um dia após o outro", é o que ele diria. Por detrás das cenas há sempre a luz dum holofote espectral.
O poeta não se coloca, aqui, como um "grande batalhador", figura rebelde que investe contra a ordem do cotidiano, os laços de família e a tradição religiosa. Pelo contrário, Rafael Zen preocupou-se em reunir para si um universo de intimidades bem conservadas: paredes brancas e limpas, frutas à mesa, feijão-fradinho escolhido com cuidado, vasilhames, bilhetes na geladeira. O que poderia fazer-nos lembrar de uma Adélia Prado, cujo apreço pelo cotidiano poético apresenta-se como um dos elementos centrais em sua obra.
Rafael Zen não tem o intuito de subverter por subverter através de sua escrita. Trata-se uma espécie de subversão mais delicada, mais contida, do tipo que aguarda pelo momento certo. O que ele parece buscar é algo mais próximo a uma fina compreensão de si próprio por meio das pequenas cenas tematizadas que propõe. Aí, então, destas reflexões emerge o pensamento subversivo e sem pudor algum, ao constatar coisas que ele, na certa, se pudesse escolher, preferiria não tomar nota.
Há, em "Leito Invisível", um interlocutor principal - Julian - sendo a ele endereçada a maior parte dos textos. Personagem envolto em brumas, ora quase que aparente e ora quase escondido, a quem o autor direciona toda ou boa parte de seus principais afetos. É em Julian que ele dá a luz; é em Julian que ele constata a passagem dos anos; é em Julian que ele toma consciência do fim imanente das coisas; é em Julian que ele se contenta com pouco enquanto sonha opulentas grandiosidades. Julian é uma espera e uma travessia.
É em Julian que ele inspeciona buracos nas exatidões. Fala em coleiras e confessa vontades mais baixias. Julian é certamente o Outro Amado: meio amante, meio filho, principal amigo, talvez, ou um inimigo dos mais íntimos, irmãos que competem entre si. É, também, a sua necessidade de renúncia e uma busca por redenção. Entre Julian e Rafael Zen só a distância da respiração boca a boca - ou da caneta a riscar o papel.
Eles brindam.
um toque de taças
às visitas inesperadas,
aos amores inacabados,
às vontades sucumbidas,
aos membros semi-eretos,
às garrafas de cachaça,
aos alcoólicos anônimos
e aos olhares antagônicos,
Curioso: a palavra "deus" aparece 27 vezes ao longo da obra. Sempre em letra minúscula. Não é o que se possa considerar, entretanto, como uma linha de poesia sacra ou qualquer coisa neste segmento. O diálogo poético de Rafael Zen com esta entidade aproxima-se mais de certa fascinação pelo invisível, pelo que não se pode supor - uma ordem mística a ditar os limites dos acontecimentos e a pôr rugas imprevisíveis nos rostos e nas relações - ao invés da afirmação de uma fé religiosa propriamente dita. Para além de tudo, há em "Leito Invisível" momentos de uma profunda entrega e devoção.
Encerro esta resenha com a transcrição de meu trecho preferido:
eu,
que sempre fui esbofeteado pela inconsequência do mundo,
libertei pés-joelhos-cotovelos-mãos, nessa ordem
e das coisas mais ardidas que o solo me deu
das areias, dos cacos de vidro, da onda impertinente
sugeri aos céus uma justificativa do desprezo
entendi, na simplicidade de um quarto
com colchão no chão e colhões escondidos
a dor dele como minha própria dor.
